O MUNDO ASSOMBRADO PELOS
DEMÔNIOS, Carl Sagan, 1995.
A CIÊNCIA VISTA COMO UMA VELA NO ESCURO
Companhia das Letras, 1997.
18. O VENTO LEVANTA A POEIRA
Por que tantas pessoas acham difícil aprender e ensinar ciência? Tentei sugerir algumas razões - a sua precisão, os seus aspectos inquietantes e contrários à intuição, as suas perspectivas de ser mal empregada, a sua independência de autoridade, e assim por diante. Mas haverá algo mais profundo? Alan Cromer, professor de física na Universidade do Nordeste em Boston,... propõe que a ciência é difícil porque é nova. Nós, uma espécie com uns 100 mil anos de idade, só descobrimos o método da ciência há alguns séculos, afirma. Como na escrita, que tem apenas alguns milênios de idade, ainda não pegamos o jeito da coisa - ou, pelo menos, só a dominamos com estudos sérios e atentos.
Se não fosse por uma concatenação improvável de eventos históricos, sugere ele, nunca teríamos inventado a ciência:
Essa hostilidade contra a ciência, em face de seus óbvios triunfos e benefícios, é [...] prova de que ela está fora da corrente principal do desenvolvimento humano, talvez seja um acaso feliz.
A civilazação chinesa inventou o tipo móvel, a pólvora, o foguete, a bússola magnética, o sismógrafo, bem como realizou observações sistemáticas e as crônicas dos céus. Os matemáticos indianos inventaram o zero, a chave para uma matemática confortável e, portanto, para a ciência quantitativa. A civilização asteca desenvolveu um calendário muito melhor do que o da civilização européia que a invadiu e destruiu; os astecas tinham mais capacidade de predizer onde estariam os planetas, e por períodos mais longos no futuro. Mas nenhuma dessas civilizações, afirma Cromer, desenvolveu o método da ciência cético, investigador e experimental. Isso tudo veio da Grécia antiga:
O desenvolvimento do pensamento objetivo pelos gregos parece ter exigido certo número de fatores culturais específicos. O primeiro foi a assembléia, onde os homens aprenderam pela primeira vez a persuadir uns aos outros por meio do debate racional. O segundo foi uma economia marítima que impedia o isolamento e o provincianismo. O terceiro foi a existência de um mundo bem amplo de língua grega em que os viajantes e os eruditos podiam perambular. O quarto foi a existência de uma classe mercantil independente que podia contratar os seus próprios professores. O quinto foi a Ilíada e a Odisséia, obras-primas da literatura que são, em si mesmas, o epítome do pensamento racional liberal. O sexto foi uma religião literária que não era dominada por padres. E o sétimo foi a persistência desses fatores durante mil anos.
A reunião de todos esses fatores numa grande civilização é totalmente fortuita; não aconteceu duas vezes.
Simpatizo com parte dessa tese. Os antigos jônicos foram os primeiros pensadores de que temos conhecimento a afirmar sistematicamente que são as leis e as forças da Natureza, e não os deuses, os responsáveis pela ordem e até pela existência do mundo.
páginas 300 e 301.
O impedimento para o pensamento científico não é, ao meu ver, a dificuldade do assunto. As proezas intelectuais complexas têm sido pontos de apoio até de culturas oprimidas. Os xamãs, os mágicos e os teólogos são muito talentosos em suas artes intricadas e misteriosas. Não, o impedimento é político e hierárquico. Nas culturas que não enfrentam desafios desconhecidos, externos ou internos, nas quais a mudança fundamental não é necessária, as idéias novas não precisam ser estimuladas. Na verdade, as heresias podem ser declaradas perigosas; o pensamento pode se tornar rígido; e podem impor-se sanções contra idéias não permitidas - tudo isso sem causar dano à sociedade. Mas, em circunstâncias políticas, biológicas e ambientais variadas e mutáveis, apenas copiar os antigos costumes não funciona. Nesses casos, existe um prêmio para aqueles que, em vez de seguir docilmente a tradição ou tentar impingir as suas preferências ao universo social ou físico, estão abertos para o que o Universo ensina. Cada sociedade deve decidir em que ponto no continuuum entre abertura e rigidez reside a segurança.
página 302.
Libertar-se da superstição não basta para o crescimento da ciência. Deve-se também ter a idéia de investigar a Natureza, fazer experimentos. Houve alguns exemplos brilhantes - a medição do diâmetro da Terra feito por Eratóstenes, ou o experimento da clepsidra de Empédocles demonstrando a natureza material do ar. Mas numa sociedade em que o trabalho manual é humilhado e tido como apropriado apenas para os escravos, como acontecia no mundo clássico greco-romano, o método experimental não prospera. A ciência requer que nos libertemos tanto da superstição crassa como da injustiça crassa. Muitas vezes, a superstição e a injustiça são impostas pelas mesmas autoridades eclesiásticas e seculares, operando de comum acordo. Não constitui surpresa que as revoluções políticas, o ceticismo em relação à religião e o nascimento da ciência andem juntos.
página 303.
Alguma coisa semelhante a leis da Natureza foi outrora vislumbrada numa sociedade decididamente politeísta, em que alguns sábios brincavam com uma forma de ateísmo. A partir do século IV a.C. aproximadamente, esse pensamento dos pré-socráticos foi extinguido por Platão, Aristóteles e, mais tarde, pelos teólogos cristãos. Se a trama da causalidade histórica tivesse sido diferente - se as hipóteses brilhantes dos atomistas sobre a natureza da matéria, a pluralidade de mundos, a imensidão do espaço e tempo tivessem sido valorizadas e servido de fundamento para a construção do conhecimento, se a tecnologia inovadora de Arquimedes tivesse sido ensinada e imitada, se a noção de leis invariáveis da Natureza que os humanos devem procurar descobrir e compreender tivesse sido amplamente difundida - eu me pergunto em que tipo de mundo viveríamos hoje em dia.
página 309.