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Cláudio Marzo

Passar cinco semanas correndo nu pelas ruas da Zona Sul carioca, entrando por manilhas e se metendo mato a dentro, não deveria ser o papel dos sonhos de um dos principais atores da televisão brasileira. Mas, em 73, no auge de sua carreira na televisão, Cláudio Marzo já rejeitava publicamente o papel de galã e buscava personagens menos descartáveis. O convite de Hugo Carvana o encontrou novamente amofinado com a televisão, enfurnado no sítio parar onde vai recarregar as baterias, em Friburgo. Foi um desafio para o ator, que atualmente no elenco da novela A Indomada, da Rede Globo. "Ficar nu em Ipanema fazendo um filme foi a melhor coisa que me aconteceu em 96", garante. Aos 56 anos, já veterano da tela grande – participou, entre outros, de Copacabana me Engana, Lira do Delírio, Faca de Dois Gumes, Parahyba Mulher Macho, Prá Frente Brasil e Se Segura, Malandro! – Marzo se diz cada vez mais interessado em cinema: "Estou disponível", avisa o ator, que acaba de filmar Adágio ao Sol, de Xavier de Oliveira, e A Reunião dos Demônios, de A.S. Cecílio Neto.

  • Foi uma decisão de última hora. Eu estava recolhido no meu sítio, em Friburgo. Tinha terminado de fazer uns trabalhos meio frustantes, estava meio triste com a minha profissão. Aí, de repente, toca o telefone. Era o Hugo me convidando para fazer O Homem Nu. Ficar nu em Ipanema fazendo um filme foi a coisa mais maravilhosa que me aconteceu em 1996. Descobri novamente o prazer de representar, de exercer o meu ofício. Para mim, espiritualmente, foi ótimo. Todos nós nos escondemos nas roupas. Sair do meu esconderijo e tirar as minhas roupas foi uma coisa que fez bem para a minha alma.
  • Não, porque você descobre um monte de coisas, os seus próprios preconceitos e os dos outros. A nudez é maravilhosa, você se expõe por inteiro. Ficar nu é descobrir um monte de conceitos que fazem a gente valorizar as coisas mais ou menos. Ninguém morre nu. Todo mundo deveria ser enterrado nu como veio ao mundo, afinal as roupas não tem nada a ver com esse novo estágio.
  • Já, mas não o vi filme de Roberto Santos com Paulo José. Tenho certeza que é um outro filme, dá para contar aquela história de cem formas diferentes.
  • O Caravana me ajudou a descobrir que posso fazer rir. Ele confiou em mim. O Caravana é um diretor tranqüilo, sabe o que quer, e transmite essa tranqüilidade aos que estão junto dele. É muito bem-humorado, mas muito profissional. A produção foi absolutamente profissional, tinha um organograma e terminou na data que tinha sido marcada, depois de 45 dias.
  • Eu gosto muito, mas tinha acabado de participar de Irmãos Coragem, uma produção muito desgastante, muito complicada e cansativa. Eu estava meio estressado. O convite do Carvana me tirou do estresse e me colocou em atividade. Deus é pura atividade. Quando você está em movimento, está em harmonia. Acho que isso está impresso no filme.
  • Não deu tempo. Eu deveria Ter feito, mas só tive 15 dias para me preparar, não é nada. Fiz um check-up cardiológico - deu tudo bem, limpeza de pele. Não gosto de fazer exercício. Tenho uma esteira, mas uso pouco. Faço mais no meu sítio, lá eu ando, nado no açude. Não tenho disciplina. Por isso, foi preciso usar um duble no filme, pois o personagem exigia um preparo físico que eu não tinha. O que o personagem corre, pula de muro, nada e anda de bicicleta… Eu não ia agüentar.
  • O constrangimento que havia, eu capitalizava para o personagem. For a isso, eu estava também me divertindo muito porque era tudo muito novo. Foi mais divertido do que constrangedor.
  • Pode-se chamar isso de mão do destino. Ele tinha uma vida toda estabelecida, que gostaria de mudar e não sabia como. De repente, a mão do destino fez ele mudar. O vento bate a porta e deixa ele nu no corredor justamente quando ele foi transar com outra mulher. Ë uma lição, em que ele aprende sobre os que estão a sua volta e sobre ele mesmo.
  • Ela é um chocolatezinho, uma delícia.
  • Fiz o Zapotec do Crime, no Se segura, Malandro!. Ë aquele personagem que fazia cooper, assaltava e continuava fazendo cooper.

    O Carvana gosta de me ver correndo.

  • Ele está mais seguro, sabe mais o que quer. Fica sentado mais tempo do que ficava antes. Antes, ele andava de um lado para o outro, ficava ansioso como pai na ante-sala da maternidade. Agora ele descobriu que pode ficar sentado.
  • Muita. Eu adoro cinema. Depois desse filme do Carvaninha, eu fiz mais um, como o Xavier de Oliveira. Chamava-se Adágio ao Sol. Filmamos no interior de São Paulo, era uma história passada durante a Revolução de 32. Eu era um fazendeiro de café. Na novela A Indomada também faço o papel de um usineiro de açúcar. Acham que eu tenho cara de patrão, logo eu que nunca fui patrão. Mas ninguém me convidou para mais nada. Estou disponível.
  • Com esse negócio de viajar sempre, eu perco tudo. Adorei o Carlota Joaquina, da Carla Camuratti. Eu acho que enquanto a economia brasileira tiver possibilidades de crescimento, o cinema brasileiro vai Ter também. Se continuar esta estabilidade econômica, o cinema brasileiro tem muito a crescer. Talento é que não nos falta. Basta ver a nossa televisão, que é vendida no mundo todo. Mas precisamos poder produzir muitos filmes. O problema é que nossos cineastas filmam de cinco em cinco anos.
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