

Hugo Carvana
Quinto filme
de Hugo Carvana, O Homem Nu é o primeiro em que ele não
acumula a direção com a atuação como protagonista.
Também foi a primeira vez em que ele não foi
responsável pelo argumento e o roteiro, preferindo se
basear na novela de Fernando Sabino, A Nudez da Verdade,
já filmada anteriormente em 1967 por Roberto Santos, com
Paulo José e Leila Diniz nos papéis principais. "Queria
descansar deste processo esquizofrênico",
explica o diretor de 59 anos. Mas se é atípico nestes
aspectos, O Homem Nu traz a marca inconfundível de
Carvana: o humor, a grande variedade de personagens e,
principalmente, o foco sobre a cidade do Rio de Janeiro,
paixão deste carioca nascido "sob as frondosas
mangueiras do Lins de Vasconcelos".
- Por que
filmar O Homem Nu ?
A grande
angústia da gente é saber o que vai fazer no futuro. O
nosso alimento é o sonho. Quando estou fazendo um filme,
já estou pensando um outro. Neste caso, depois do meu
último filme, o Vai Trabalhar, Vagabundo II, eu não
tinha desenvolvido essa metodologia. Tinha só umas
esparsas idéias sobre o Tempestade Cerebral, que vai ser
o meu próximo filme. Havia um hiato entre o que acabara
de ser feito e o que seria feito que me deixava
angustiado.
- Talvez
isso tenha acontecido porque o Vai Trabalhar, Vagabundo
II teve uma produção muito complicada.
Isso, como eu
tive de resolver todos os bodes do outro, não pude
alimentar o próximo. Aí eu percebi que precisava
destensionar. Fazer um filme sem compromisso com roteiro,
descobrir uma história de terceiros. Queria dirigir um
filme sem ser esquizofrenicamente ator principal, diretor
e produtor. (é um processo neurótico, a onipotência
levada ao extremo. Fiz dez anos de análise para entender
isso.) E queria, é claro, fazer comédia. Aí cheguei no
O Homem Nu, um clássico do humor, que também me
permitiria sair daquele personagem do malandro, que já
tinha ficado muito marcado. Aí procurei o Fernando
Sabino.
- Você já
conhecia o filme do Roberto Santos?
Já. Mas,
depois de 30 anos, não me lembrava de muita coisa, e nem
queria lembrar.
- Quais são
as diferenças de roteiro nos dois filmes?
O argumento
que existia era muito datado; mostrava uma cidade dos
anos 50. Eu disse ao Sabino que seria muito difícil a
gente reconstruir as ruas do Rio dos anos 50. Por
exemplo, o telefone só com seis dígitos; havia menção
à favela da Catacumba na Lagoa. Eu me interessei também
por colocar como personagem a cidade.
- Que
acontece em todos os seus filmes.
É. Mas a
cidade do roteiro dos anos 50 era apenas um cenário para
a ação. Sugeri a ele que transformássemos a cidade em
personagem da ação. Foi esse trabalho que o Sabino fez.
Além disso, pela atuação dos atores, um filme adquire
forças que independem de mim ou do autor. Por exemplo: a
repórter de televisão, minha sobrinha. É atriz de
teatro infantil, amadora. Estava nervosa, mas saiu-se
bem, segurou. Antes de rodar um plano, ela se olhava na
câmera, para ver se o cabelo estava certo. Eu falei para
ela incorporar. É um personagem onde faço uma
observação crítica da imprensa, de como a notícia se
desfaz imediatamente. O Fernando Sabino também se
surpreendeu com a Marialva no filme. Falou: "Pensava
que você ia fazer uma coisa mais coquete. Ficou uma
carga humana, um sentimento!" Eu fugi do
estereótipo da mulata do Sargentelli, da Plataforma.
Marialva é uma mulher como outra qualquer, que trabalha,
independentemente. O professor não é machista, é um
intelectual sensível que se apaixonou pela suavidade
daquela mulata, aquela figura jovem, bonita e carinhosa.
- Como foi a
escolha do elenco? O Cláudio Marzo, por exemplo, não
tinha sido escalado inicialmente.
Não, ia ser
o José Wilker, mas ele não pôde. Esse era um filme que
só seria viável financeiramente se eu pudesse filmá-lo
em cinco semanas. Todos os meus filmes eu fiz em oito. Eu
topei, e me comprometi a respeitar estes prazos. Eu
precisava de um ator que estivesse à minha disposição
cinco semanas todos os dias. O Zé tinha cinco atividades
for a, e não poderia fazer. Eu e Cláudio somos amigos
há uns 35 anos. Trabalhar com ele é prolongar dentro do
set uma vida em comum. A primeira coisa que ele falou
foi: "To muito velho, bicho, cê já me viu
nu?" Eu disse não, está ótimo. Mas esse é um
personagem desgastante para o ator, e ele já tem 50 e
tantos anos. Filmava todos os dias, de seis da manhã às
seis da tarde, for a as noturnas. E sempre nas ruas, onde
ele estava permanente nu, ele uma figura popular, sentado
na calçada, gente em volta, imprensa, sol, praia, calor,
correr, se suar de graxa, tomar banho de mangueira, se
enfiar por dentro de manilhas. Ele foi extremamente
profissional. É um ator fantástico. Basta dizer que ele
passa a maior parte do filme calado. É puro sentimento.
- Sem falar
que filmar nu na rua o tempo todo é complicado.
Sempre
procurava evitar que aparecesse a nudez dele. Eu disse:
"Vai Ter de aparecer uma vez, para o público ver,
mas você não vai ficar nu na filmagem. Vai usar uma
sunga cor de pele. Mas às vezes aparecia um pedaço da
sunga, a gente tinha de repetir. E ele reagia: "Quer
saber de uma coisa? Vou tirar logo essa porra".
- Como foi a
reação do público?
Achei que ia
ser um escândalo, mas o público estava curioso sobre a
filmagem, não chocado.
- E a
participação da Isabel Fillardis?
Eu tinha
decidido lançar um rosto novo e feito testes com umas 30
mocas. Umas eram fracas, outras teriam dificuldade de
seguir meu ritmo, que é muito intenso. Só me restou
uma. Ainda não era ideal - ela tinha um cabelo enorme,
que lhe dava um ar de vedete de teatro de revista. Eu
disse: corto este cabelo e resolvo. Mas vi que seria
difícil, ela era uma pessoa insegura, intuí que seria
um problema. Isso foi às vésperas da filmagem. O
figurino tinha de ser feito e a gente não sabia quem ia
ser a atriz. Então pensei em chamar a Isabel Fillardis,
que já tinha sido cogitada anteriormente. Graças a
Deus, foi meu anjo da guarda.
- Mesmo
abrindo mão de fazer o protagonista, você não deixou
de aparecer num personagem que têm sido muito aplaudido
nas sessões do filme.
Eu queria
fazer um personagem pequeno, e escolhi o motorista de
táxi, que é um personagem simpático, emblemático do
Rio de Janeiro, e bem na linha que eu gosto, de romance,
brincadeira.
- Como é
seu método de trabalho como diretor?
Eu explico
para o ator o filme inteiro. Assim, o ator sabe
exatamente o que vai fazer. Com o Cláudio, peguei
sequência por seqüência e trabalhei só o personagem
dele. Com isso ele teve um roteiro do seu trabalho. Cada
vez que entrava em cena, sabia o que iria fazer. Isso
ajuda demais a um ator.
- Que
perspectivas você vê para o cinema nacional?
Evidentemente,
por não contar mais com subsídios do Estado, o mercado
vai ficar seletivo. À medida que a produção for
aumentando, investidores vão buscar projetos que lhe
dêem mais garantia de rentabilidade. A tendência é
formar conglomerados. Os investidores vão preferir
investir em quem tiver dez filmes para produzir, não
adianta tem um filme só. Sou produtor artesanal, mas
existem outras empresas que têm vocação para crescer.
Quanto a mim, preciso achar meu nicho no mercado.
- Você
passou pelos dois momentos mais importantes do cinema
brasileiro: a Chanchada e o Cinema Novo. Você acha que
seu trabalho é mais ligado a Chanchada?
No Teatro de
Arena e no Cinema Novo, descobri o potencial de
transformação do homem e do seu ambiente social pela
arte. mas A Chanchada me deu o lúdico. Ela me deu a
brincadeira, a irreverência, a musicalidade. Eu não
posso dizer que uma escola é mais importante que a
outra, são complementares. Como ator, fiz um trabalho
racional, político. Mas quando fui ser diretor, fiz
filmes ligados à Chanchada.
- Como vai
ser seu próximo projeto?
Está
embrionário. Quero encontrar o meu lado musical, quero
que a música seja um elemento narrativo. Mais uma vez,
é um filme em que o Rio de Janeiro é personagem. É a
história de um homem e seu cérebro, sua massa
encefálica. Também vou voltar a atuar, mas não como o
único ator principal. É uma produção complicada, vai
dos anos 20 aos anos 70, com música fazendo a ligação.
Carioca, 59 anos,
diretor, ator, roteirista e produtor.
Direção1991
- Vai
Trabalhar Vagabundo II, A Volta, comédia com
Hugo Carvana, Marieta Severo, Andréia Beltrão e
Marcos Palmeira
- Festival
de Brasília, 1991 - Melhor Ator (Hugo Carvana),
Melhor Atriz Coadjuvante (Andréia Beltrão)
- Festival
de Gramado 1991 - Melhor Filme (Júri Popular),
Melhor Ator (Hugo Carvana), Melhor Trilha Sonora
)Sérgio Sarraceni), Melhor Direção de Arte
(Cristiano Amaral)
- Festival
de Natal 1991 - Melhor Ator (Hugo Carvana),
Melhor Roteiro (Hugo Carvana e José Joffly)
- Festival
SESC Cinema, São Paulo, 1991 - Prêmio da
Crítica de Melhor Ator (Hugo Carvana)
1982
- Bar
Esperança - Comédia com Hugo Carvana, Marília
Pera, Sílvia Bandeira, Paulo César Pereiro,
Anselmo Vasconcelos e Antônio Pedro
- Festival
de Gramado, 1983 - Melhor Atriz (Marília Pera),
Melhor Atriz Coadjuvante (Sílvia Bandeira) e
Melhor Roteiro (Denise Bandeira, Euclides
Marinho, Armando Costa, Martha Alencar e Hugo
Carvana)
- Festival
da Costa Atlântica, Cádiz, Espanha - Melhor
Filme
- Festival
del Nuevo Cine Latino Americano, Havana, Cuba -
Prêmio Caracol - Melhor Filme, concedido pela
União dos Escritores e Artistas Cubanos (UNEAC)
- Vendido
para EUA, Inglaterra, Canadá, Argentina,
Paraguai, Uruguai, Angola, Dinamarca, Nícaragua,
Porto Rico e Ilhas Virgens
1978
- Se
Segura, Malandro, comédia com Hugo Carvana,
Denise Bandeira, Cláudio Marzo, Wilson Grey,
Paulo César Pereio
- Prêmio
São Saruê da Federação de Cineclubes do Rio
de Janeiro 1978
- Prêmio
Governador do Estado de São Paulo 1978 - Melhor
Ator Coadjuvante (André Villon)
1973
- Vai
Trabalhar, Vagabundo - Comédia com Hugo Carvana,
Wilson Grey, Paulo César Pereiro, Odete Lara e
Fregolente
- Festival
de Gramado de 1974 - Melhor Filme
- Prêmio
Air France de Cinema - 1973
- Prêmio
de Qualidade INC - 1973
- Prêmio
Curumim Cineclube Marília - 1975
- Prêmio
Cariddi d'Óro/Opera Prima do Festival de
Taormina, Itália
- Vendido
para a França, Suíça, Chile, México, Africa,
Espanha e EUA
- Convidado
para a Quinzaine des Réalisateurs do Festival de
Cannes de 1974
Roteiro
1982
-
Bar Esperança, de Hugo Carvana
(Armando Costa, Euclides Marinho, Martha Alencar
e Denise Bandeira)1973 - Vai
Trabalhar, Vagabundo, de Hugo Carvana (Armando
Costa e Leopoldo Serran)
1970
- Quando o Carnaval Chegar, de Cacá Diegues
(Cacá Diegues)
1961
- Copacabana Zero Hora, de Duilio Mastroiani
(Duilio Mastroiani)
Produção
Vai
Trabalhar Vagabundo II, A Volta, 1991Bar
Esperança, 1982
Se
Segura Malandro, 1978
Capitão
Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil, 1991
Ator de Cinema
Com
76 filmes no currículo, Hugo Carvana construiu
uma das mais longas e bem-sucedidas carreiras de
ator do cinema brasileiro. Depois de estrear com
Trabalhou Bem, Genival, de Lulu de Barros, em
1955, Hugo atuou até o fim dos anos 50 em
chanchadas, com diretores como Watson Macedo
(Sinfonia Carioca, Carnaval em Marte) e Carlos
Manga (Guerra ao Samba, Garotas e Samba). Em
1962, já integrava o movimento do Cinema Novo,
trabalhando com seus principais diretores, como
Ruy Guerra (Os Cafajestes, Os Fuzis), Paulo
César Sarraceni (O Desafio), Leon Hirzman (A
Falecida), Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma),
Cacá Diegues (A Grande Cidade, Os Herdeiros,
Quando o Carnaval Chegar), e Glauber Rocha (O
Câncer, O Leão de Sete Cabeças, Terra em
Transe), entre outros.
Ator de Teatro
Entre
1957 e 1967, Hugo Carvana fez oito peças,
integrando o Teatro de Arena de São Paulo
(Revolução na América do Sul), O Teatro
Nacional de Comédia (O Pagador de Promessas,
Boca de Ouro) e Grupo Opinião (Meia Volta Vou
Ver, Se Correr o Bicho Pega).
Ator de Televisão
Desde
1966, atua nas novelas da Rede Globo,
participando de novelas como Anastácia, Cuca
Legal, Gabriela, Corpo a Corpo, Roda de Fogo, O
Dono do Mundo, Fera Ferida e Cara e Coroa. De
1979 a 1981, foi protagonista da série semanal
Plantão de Polícia, Engraçadinha, Agosto e As
Noivas de Copacabana foram outras séries em que
atuou.
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